No ano de 1995, eu, meu irmão Alysson e meu
primo Cláudio decidimos acampar e subir o pico da
bandeira. Pegamos a Caravan do meu pai e fomos até a cidade
de Alto Caparaó, porta de entrada para o Parque
Nacional do Caparaó. Chegando ao parque, pagamos nossa
estadia por 3 noites na área de camping da
Tronqueira.
Assim que deixamos a portaria do parque, começamos a subida
de 5 km até a Tronqueira com a velha Caravan 79 do meu pai.
O motor esquentava muito, porque tínhamos que manter a
marcha em 1ª e 2ª. Resultado: tivemos que
fazer algumas paradas para o

carro
esfriar e, mesmo assim, o radiador ferveu a uns 700m da Tronqueira.
Fomos até a cachoeira, que fica a 600m da Tronqueira, e
pegamos alguns litros de água
geladíssima. Com isso, conseguimos levar a Caravan
até o estacionamento da Tronqueira.
A Tronqueira fica a 1.970 metros de altitude, e possui uma vista
deslumbrante. Não possuía água
aquecida e tomávamos banho na Cachoeira Bonita, aproveitando
o sol(a água aquecida por energia solar foi colocada a pouco
tempo). Tínhamos que tomar muito cuidado com as barracas e
mantê-las sempre fechadas por causa dos quatis. Eles
são muito espertos e roubam toda a comida que puderem
levar. Vimos dois quatis levando uma penca de bananas e uma
lata de conserva para a mata.
A alimentação consistia de miojo,
ruffles, chocolates e gatorade.

Devido à altitude, o miojo
não cozinha tão rápido como
diz a embalagem e, por mais que tentássemos, o
nosso fogareiro não conseguia ferver a
água. Mas mesmo assim, o miojo acabou cozinhando...
Acordamos no sábado, após uma noite bem
fria(10º), com as nuvens no acampamento, isso mesmo,
não estavam nem abaixo nem acima, e sim dentro do
acampamento! Como o dia estava muito claro e quente, decidimos passar o
dia na Cachoeira Bonita. Levamos o material de rapel e ancoramos a
corda em uma grande rocha acima da caichoeira. Infelizmente, a nossa
corda só possuía 50 metros e, como a cachoeira
tem 80 metros, tínhamos que parar em algum ponto no meio
dela.
Depois do rapel e de um banho energizante na cachoeira, fomos para a
área de acampamento descansar e preparar para a subida
eté o Pico da Bandeira.
Começamos a subida por volta das 22:00, equipados com
mochilas, lanternas, isolantes térmicos, sacos de dormir,
cobertores e roupas grossas, prontos para percorrer os 4,5 km
até o Terreirão. Tudo ia muito bem até
sairmos da trilha por volta das 23:00. Tentamos encontrar a trilha
várias vezes e não conseguimos. Como estava muito
escuro, resolvi que deveríamos seguir até o rio e
poderíamos subir à margem dele já que
ele passava pelo Terreirão. Quando chegamos à
margem do rio, avistamos a trilha logo acima e
conseguimos voltar a ela. Subimos pela trilha até o
Terreirão, onde chegamos depois da meia-noite.
O Terreirão fica a 2370 metros de altitude, é uma
pequena planície situada no meio de várias
montanhas e é nele que se encontra a famosa "Casa de Pedra",
onde descansamos. Essa "Casa de Pedra" é bem rudimentar, o
piso é de terra batida e o cheiro de fumaça de
madeira queimada deixa qualquer alérgico louco! Pouco depois
que fizemos essa parada, começamos a sentir o frio. As
costas começam a doer e o suor acumulado pela caminhada
começa a ficar gelado. O frio próximo a
0º e as paredes de pedra não ajudavam, por isso,
utilizamos os isolantes térmicos para nos recostar nas
paredes. Encontramos um grupo que estava aguardando, também,
o momento certo de subir até o pico.
Nos juntamos a esse grupo e começamos a subir para o pico
por volta das 2:00. A caminhada ficou mais íngreme e
forçada mas o céu totalmente estrelado nos
motivava a continuar. Chegamos ao pico da bandeira por volta das 4:30
da manhã. Como ainda era muito cedo, deitamos cada um em um
saco de dormir para suportar o frio e ventos cortantes de -5º.
Nunca havia visto tantas estrelas no céu... até
um poeira de estrelas era visível! Praticamente
não existia aquele espaço negro que estamos
acostumados a ver das cidades. Tudo era preenchido por estrelas
ínfimas...

De repente, o céu começou a mudar levemente de
tom, era o anúncio do alvorecer... Ficamos todos a
postos
para vermos os primeiros raios de sol e o momento em que o grande astro
apareceria no horizonte. Foi
um espetáculo comemorado por todos! É
incrível ver a altitude em que nos encontrávamos,
as nuvens muito abaixo de nós e as outras montanhas pareciam
pequenas ondulações. Quando o sol saiu da linha
do
horizonte e o dia clareou, pudemos ver o Pico do Cristal e a
trilha por onde havíamos chegado. Ficamos
até as 09:00 e então resolvemos descer para a
Tronqueira.
Tirei duas fotos para mostrar a magnitude do Pico da
Bandeira e como é a trilha após o
Terreirão. A descida para a Tronqueira é bem mais
tranqüila, pois com a claridade do dia, podemos descer mais
rápido e com mais segurança. Cada
momento da
descida é único pois podemos perceber
a grandiosidade do lugar e a beleza natural das
formações rochosas, da
vegetação e do Rio Caparaó.
Pico da
Bandeira II

No ano de 2002, eu e minha esposa
Renata, resolvemos repetir a façanha. Só que,
dessa vez, ficamos em uma pousada próxima à
entrada do parque, contratamos um guia local e subimos de gipe
até a Tronqueira. No entanto, não tivemos tanta
sorte quanto da outra vez, o tempo estava chuvoso e o céu
totalmente encoberto. O Frio era quase insuportável e
ficávamos molhados mesmo usando capas protetoras. Chegamos
ao pico da bandeira sem fôlego algum e morrendo de frio. Nos
cobrimos com o mesmo saco de dormir que eu levei em 1995 e nos
abrigamos ao lado da base do cruzeiro, para fugir do vento. Eis que de
repente um "mané" nos pisoteia, isso mesmo, o
"manezão" nos confundiu com uma rocha! Quase quebrou o nariz
da Renata! Mesmo assim, esperamos o raiar do sol, que acabou
não aparecendo devido à forte
cerração. Quando as nuvens começaram
a baixar, as montanhas se revelaram e, pelo menos nesse
momento, pude relembrar a beleza inesquecível do Pico da
Bandeira!
Links interessantes:
Equipe
Quati Preserve - Parque Nacional do Caparaó - Tronqueira /
Terreirão
Expedição
Bemtevibrasil